BlogEspionagemipcressfilecaineTempos de espionagem: Michael Caine como agente secreto no filme “The Ipcress File”, de 1965.

A presidente Cristina Kirchner enviou dias atrás ao Parlamento um projeto de lei para dissolver a Secretaria de Inteligência (SI) e substitui-la pela Agência Federal de Inteligência (AFI). O projeto será analisado nesta terça-feira, dia 3 de fevereiro, em uma comissão do Senado. Mas, apesar dos anúncios sobre uma “reforma” e “limpeza”, o projeto mantém os agentes de inteligência “em seus respectivos níveis, graus e categorias hierárquicas”. Além disso, por decreto, a presidente aumentou os salários desses espiões desde este domingo.

Desta forma, os funcionários do sistema de espionagem argentino, calculado entre 1.700 e 1.900 pessoas (o governo mantém segredo sobre o número de agentes), permanecerão em seus postos – entre os quais homens que ali trabalham desde os tempos da ditadura militar (1976-83) embora em um organismo com o nome e a sigla diferente, que passa de SI para AFI.

O serviço de espiões foi criado em 1946 pelo então presidente Juan Domingo Perón. O nome inicial foi Coordenação de Informações do Estado (Cide). Posteriormente o nome foi mudado para “Secretaria de Inteligência do Estado”, cuja sigla SIDE é usada até hoje pelo governo.

Com a dissolução da SI proposta por Cristina, os espiões sequer teriam o incômodo de mudar de endereço, pois permaneceriam no mesmo prédio na esquina da avenida Rivadavia e da rua 25 de Mayo, na lateral da Casa Rosada, o palácio presidencial (o edifício, chamado “Martínez de Hoz”, foi construído em 1929 pelo arquiteto racionalista Alejandro Bustillo e inaugurado em 1930).

“É só uma manobra para distrair. Não passa de uma mudança de nome que não muda nada na prática”, criticou o senador Ernesto Sanz, da União Cívica Radical (UCR), de oposição.

A “dissolução” da SI teria um único efeito concreto: a nova agência ficará sem as prerrogativas que a SI possui atualmente para os grampos telefônicos. Esta área que passaria para a Procuradoria-Geral da República, comandada por Alejandra Gils Carbó, declarada militante kirchnerista.

A reforma da espionagem, que seria cosmética e apenas restrita à SI, não implica em mudanças aos outros seis sistemas de espionagem no país: a dos serviços de espionagem das Forças Armadas, a Guarda-Marinha, a Gendarmería, a Polícia Federal, a da Secretaria de Segurança e a da Polícia de Segurança Aeroportuária.

Segundo a historiadora e jornalista Silvia Mercado, esta é a maior estrutura de espionagem da História da Argentina.

No ano passado o serviço de inteligência do Exército teve um aumento de 31,8% de seu orçamento. A Secretaria de Inteligência (SI), controlada por civis, recebeu um incremento de 16%.

Paradoxalmente, o aumento concedido por Cristina para o orçamento para os espiões militares ocorre em tempos de ausência de hipóteses de conflito.

As forças armadas argentinas – por lei, desde a volta da democracia – não podem realizar tarefas de inteligência interna. Teoricamente elas teriam que dedicar-se somente a ações para prevenir hipóteses de conflito com outros países.

Mas, o país não possui hipóteses de conflitos desde os anos 80, quando a Argentina fez os primeiros acordos com o Brasil (que levariam posteriormente ao Mercosul) e o tratado de fronteiras com o Chile, em 1984.

Segundo a oposição, os fundos para ampliar a inteligência militar foram destinados à espionagem interna, especialmente dos representantes de partidos políticos opositores, jornalistas, sindicalistas e empresários não-alinhados.

CONSPIRAÇÕES, COMPLÔS & AFINS – O objetivo, segundo Cristina, é o de eliminar uma estrutura composta por espiões que – segundo ela – estiveram “conspirando” contra seu governo e a “pátria”. A reforma do sistema de espionagem coincide com um “complô” que, de acordo com a presidente, foi feito por espiões em conjunto com o promotor federal Alberto Nisman.

Nisman, que morreu com um tiro na cabeça no 18 de janeiro, 4 dias depois de ter denunciado a presidente Cristina

A supracitada “conspiração” referia-se à denúncia feita por Nisman 4 dias antes de morrer com um tiro na cabeça, na qual indicava que a presidente Cristina teria ordenado em 2012 uma operação de encobrimento das altas autoridades iranianas que teriam planejado o ataque terrorista contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) em 1994.

blog1vinheta71bPEQUENO GLOSSÁRIO DE “ESPIONÊS” ARGENTINO:

– Servicios (Serviços): Forma para referir-se aos diversos sistema de inteligência da Argentina.

– Servicio (Serviço): No singular, forma de designar um agente. Por exemplo: “Ele é um ‘servicio’”.

– Service: Forma irônica, como se estivesse falando em inglês. “Gastão? Não sabia? Mas ele é um ‘service’!”

– Servilleta: Forma mais irônica ainda. Servilleta é “guardanapo”. Mas, não tem nada a ver com esse elemento de pano ou papel para limpar a boca. É uma gíria que brinca com o termo “servicio” citando outra palavra que começa com a mesma sílaba

– Agente orgânico: Os agentes dos serviços que estão registrados no plantel oficial desses organismos de espionagem.

– Agente inorgânico: Denominação dos agentes que trabalham para os sistemas de espionagem mas sem uma relação formal. No entanto, em alguns casos os inorgânicos trabalham bem mais que os orgânicos e ficam décadas nessas funções.

– Sobre: “Sobre” é “envelope”. Os subornos e pagamentos dos serviços de inteligência a colaboradores externos (juízes, promotores, jornalistas, assessores de políticos e os mais variados profissionais, entre os quais zeladores e porteiros) são enviados em envelopes.

– Cadena de la felicidad: Rede da felicidade. O dia – ou semana – em que são distribuídos os “sobres”.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios é desde 1996 o correspondente em Buenos Aires do canal de notícias Globo News, para o qual cobre os países da América do Sul. Ele foi o correspondente de O Estado de S.Paulo (1995-2015), da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Foi colunista da Revista Imprensa e colabora eventualmente com o Observatório da Imprensa.

Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com o correspondente internacional Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

Em 2014 recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

Ariel formou-se em 1987 na Universidade Estadual de Londrina (PR) e fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993.

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