BlogCristinaCaoPinguim

Se tivesse nascido no século XX Jacques Offenbach (1819-1880) – que foi um dos emblemas da opereta, que é um tipo de ópera animada e anormal, com uma trama inverossímil e disparatada – poderia ter feito a música para um roteiro delirante de Graham Greene sob a hipotética direção de Federico Fellini sobre o intricado Caso Nisman e seus attachments políticos. O imbróglio policial-político cujo pivô é a morte desse promotor federal está causando uma crise adicional na reta final do governo da presidente Cristina Kirchner. Acima, a presidente argentina em uma imagem do vídeo no qual dirigiu-se aos argentinos para anunciar, em novembro de 2013, que havia recuperado-se de uma operação no crânio. Na ocasião dedicou dois terços do vídeo para apresentar seu cãozinho Simón. Além disso, mostrou um pinguim de pelúcia que havia recebido de presente.

blog1dedo4cBUENOS AIRES – Neste domingo completam-se três semanas do surgimento do corpo do promotor federal Alberto Nisman no banheiro de seu apartamento no bairro portenho de Puerto Madero, vestindo uma camiseta e cueca. Um tiro atrás da orelha direita, feita com uma arma calibre 22, sem apoiar na cabeça, completava o funéreo cenário. Quatro dias antes Nisman havia apresentado uma denúncia contra Cristina Kirchner, na qual indicava que a presidente argentina havia ordenado uma operação de encobrimento de altas autoridades iranianas que teriam coordenado o ataque terrorista contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) em 1994 em Buenos Aires. No ataque morreram 85 pessoas e outras 300 foram feridas e mutiladas. No dia seguinte à sua morte na agenda de Nisman estava programada uma crucial visita à Camara de Deputados, onde daria mais detalhes sobre sua denúncia sobre a presidente. O tiro no parietal, 24 horas antes, impediu o pontual Nisman de comparecer.

Nas duas primeiras semanas após a defunção a investigação sobre a morte de Nisman teve tons de uma tragédia shakespeariana em ritmo de ópera bufa à base de tango. Enquanto a imprensa, a opinião pública e os partidos da oposição, da direita à esquerda real, indicavam elevada suspeita sobre um eventual assassinato o governo Kirchner insistia na tese do suicídio. Dias depois a Casa Rosada mudou o discurso drasticamente e afirmou: “não foi suicídio”.

Nesta terceira semana os acontecimentos continuaram sucedendo-se em forma tragicômica. A seguir, um brevíssimo resumo de alguns dos surrealistas frenéticos 7 dias prévios:

1 – A promotora Viviana Fein, que investiga a morte de Nisman, inesperadamente anunciou que ia tirar férias. Seus colegas indicaram que estava sofrendo pressões do governo. Um dia depois anunciou que cancelava seus planos de ir à praia e tirou da mala o maiô e o bronzeador. De quebra, deixou claro que não renunciaria.

2 – Os juízes não queriam pegar a batata-quente da denúncia de Nisman contra Cristina (ainda por cima, levando em conta que o promotor havia aparecido com um tiro na cabeça). A Justiça pediu para o juiz Ariel Lijo ficar com a missão. Mas Lijo recusou, alegando incompetência. Na sequência, a Justiça pediu para o juiz Daniel Rafecas, que também recusou. No entanto, a Câmara Federal de Justiça ordenou – categoricamente – que Rafecas pegasse o caso.

3 – Nesse intervalo, outro juiz, Claudio Bonadío, recebeu ameaças de morte. Ele não está no Caso Nisman, mas investiga a suposta lavagem de dinheiro nos hotéis de luxo que são propriedade da presidente Cristina Kirchner o sul do país.

4 – No domingo dia 1 de fevereiro o jornal Clarín havia publicado uma matéria na qual afirmava que Nisman havia preparado outro esboço de denúncia que finalmente descartou. Nesse esboço o promotor pedia a detenção da presidente Cristina e do chanceler Héctor Timerman, entre outros. Esse esboço, segundo o Clarín, estava na cesta de lixo de Nisman.

Mas, várias horas depois, o Centro de Informação Judiciária, controlado pela promotora-geral da República, Alejandra Gils Carbó, anunciou que não havia sido encontrado esboço algum com pedido de detenção.

Na 2afeira de manhã o chefe do gabinete de ministros, Jorge Capitanich, ficou famoso mundialmente ao protagonizar uma cena na qual, irritado, rasgou as páginas do Clarín, ressaltando que o jornal havia “mentido” e que os artigos sobre o esboço com o pedido de detenção da presidente era “um lixo”.

Um dia depois a promotor Fein afirmou que, na realidade, a matéria era correta: Nisman havia preparado o esboço com o pedido de detenção da presidente Cristina. Perante o vexame, o governo ficou calado.

5 – Cristina Kirchner – que havia quebrado o tornozelo no final de dezembro – voltou a aparecer em cadeira de rodas criticando a imprensa, a oposição, além de alegar “conspirações” contra seu governo.

Mas, dois dias depois, em visita oficial à China, Cristina apareceu sem cadeira de rodas, caminhando. “Lembram que fui em cadeira de rodas (à China)? Bom, graças a Deus, me recuperei e volto caminhando”, afirmou desde Beijing pelo Twitter.

O Twitter está proibido na China.

De quebra, pelo proibido Twitter a presidente Cristina recorreu a um surrado e preconceituoso clichê para gozar sobre o sotaque dos chineses quando falam outro idioma. Em vez de colocar a letra “L” em vez de “R”, Cristina indicou que mais de mil pessoas foram ao evento no qual discursou, e aí perguntava no Twitter, em referência à La Cámpora, denominação da juventude kirchnerista: “seriam todos de ‘La Cámpola’ e vieram só pelo aLoz e o petLóleo?”.

Segundo o jornalista Evan Osnos, da revista “The New Yorker”, “a presidente marcou um novo recorde em eficiência ofensiva racial: insultou um quinto da Humanidade em menos de 140 caracteres”.

6 – A notícia sobre Nisman teve impacto planetário: até a atriz americana Mia Farrow falou nas redes sociais sobre o assunto e acusou a presidente Cristina de mandar matar o promotor. A tenista Martina Navratilova também criticou Cristina por suas guinadas sobre o “suicídio/não-foi-suicídio”, afirmando que “tudo isso cheira mal”.

A presidente argentina, que nunca responde perguntas da imprensa, anunciou que responderá por carta a Farrow e Navratilova, para explicar às duas celebridades que ela não mandou matar Nisman e que tudo não passa de uma conspiração da imprensa.


Um breve interlúdio musical: da opereta “A grã-duquesa de Gérolstein”, “O trio dos conspiradores”. A obra , em três atos com música de Jacques Offenbach e libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy.

7 – Enquanto isso, a promotora Fein descobriu que as câmeras de segurança do prédio de Nisman não funcionavam.

8 – Quase três semanas após a morte de Nisman a promotora Fein ordenou à Polícia que fosse ao Banco de la Ciudad de Buenos Aires verificar o conteúdo de uma caixa-forte que o promotor morto. Mas, a caixa estava vazia.

9 – Nos próximos dias o poderoso ex-espião do serviço de inteligência da Argentina Jaime Stiuso teria que prestar depoimento sobre a morte de Nisman. Stiuso, espião preferido de Néstor Kirchner (2003-2007) tornou-se um dos novos “inimigos número 1” de sua viúva, a presidente Cristina. Há 11 anos Kirchner ordenou a Stiuso que ajudasse Nisman em suas investigações sobre o caso AMIA. O ex-espião teria falado por telefone com o promotor na véspera de sua morte.

10 – A ex-mulher de Nisman, a juíza Sandra Arroyo Salado, declarou que recebeu um dia antes da morte do ex-marido uma revista com a foto dele com uma marca, feita à mão, como se simulasse um tiro na cabeça, entre os olhos. Nenhum outro exemplar da revista possui essa marca. A interpretação: uma mensagem mafiosa do que iria ocorrer.

11 – A deputada Laura Alonso, da oposição, declarou que Nisman, dias antes de morrer, lhe disse que “a presidente Cristina ordenou tudo” em relação ao pacto com Teerã.

12 – Quase no fim da semana o jornal britânico “Financial Times” afirmou que “o governo Kirchner está assustado e talvez esconda algo”. O jornal recomenda a criação de um time de especialistas internacionais independente para investigar esta misteriosa morte. Segundo o Financial Times, “desde que Nisman foi encontrado morto em seu apartamento em Buenos Aires, fica confirmado o ditado ‘a realidade supera a ficção na Argentina’, já que ninguém inventaria uma história assim”.

BlogBorgesPunhal

O escritor Jorge Luis Borges (1899-1986) segura um punhal. Fotograma del filme “Borges: un destino sudamericano”, de Tadeo Bortnowski e José Luis di Zeo.

13 – O Caso Nisman foi o foco de um debate sobre a literatura policial noir em um evento literário em Barcelona, o “BC Negra”.

Ali a escritora argentina Claudia Piñero afirmou que “para os argentinos sempre torna-se urgente encontrar um culpado bem rápido para que todos se tranquilizem”.

É o que o escritor Ricardo Piglia chamava de “a ficção paranoica”.

A Argentina tem uma enorme tradição de literatura policial, entre os quais os autores Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Piglia. Mas, esta literatura tem suas peculiaridades, adaptadas à realidade nacional, segundo dizia o escritor Carlos Gamerro, com os seguintes pontos:

– O crime sempre é cometido pela Polícia;

– O propósito das investigações é ocultar a verdade;

– A missão da Justiça é acobertar a Polícia;

– As pistas e os indícios materiais nunca são confiáveis, pois a Polícia chegou primeiro;

– E o último ponto: toda pessoa acusada pela Polícia argentina é inocente.

Esta definição não é de agora. Gamerro disse isso há 10 anos.

blog1vinhetas6

E aqui, novamente, “A grã-duquesa de Gérolstein”: Felicity Lott canta “Le Sabre de mon Père”.

blog1dedo4cE, para encerrar, um pequeno guia das mortes nas tragédias de William Shakespare:

BlogTragediasShakespeare
hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios é desde 1996 o correspondente em Buenos Aires do canal de notícias Globo News, para o qual cobre os países da América do Sul. Ele foi o correspondente de O Estado de S.Paulo (1995-2015), da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Foi colunista da Revista Imprensa e colabora eventualmente com o Observatório da Imprensa.

Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com o correspondente internacional Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

Em 2014 recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

Ariel formou-se em 1987 na Universidade Estadual de Londrina (PR) e fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993.

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