V0001848 Gabriele Fallopio. Line engraving, 1688.

Gabriele Falloppio, um dos mais importantes anatomistas do século XVI, descreveu as trompas que levam os óvulos do ovário para o útero. Além disso, foi o criador em 1564 do primeiro preservativo masculino que está devidamente documentado. O cientista defendia o uso dessa proteção como forma de combater o flagelo hit parade daqueles tempos, a sífilis. “Convenci 1.100 homens a usar (o preservativo). E convoco Deus imortal para testemunhar que nenhum deles foi infectado”. Fallopio, homem versátil, também cunhou a planetariamente famosa palavra “vagina” (de quebra, também crunhou o termo ‘placenta’). Falloppio nasceu em 1523. O inconveniente Universo o descontinuou apenas 39 anos mais tarde. Seu invento, o preservativo, seria protagonista de uma crise de escassez cinco séculos depois na Venezuela, cujas costas haviam sido descobertas pouco mais de duas décadas antes do nascimento de Fallopio.

blog1dedo4cA escassez de produtos na Venezuela conta agora com um novo capítulo que desta vez, transforma a cópula em um grande problema, já que existe um inédito desabastecimento de “condones” – preservativos – nesse país caribenho comandado pelo presidente Nicolás Maduro. Por trás da escassez estão às restrições aplicadas pelo governo Maduro para que os importadores tenham acesso aos dólares. As mesmas restrições provocaram nos últimos anos complicações para a entrada de remédios, alimentos, insumos industriais, peças, fraldas, entre outros produtos.

Estas limitações aumentaram desde o ano passado devido à queda do preço do petróleo – principal produto de exportação desse país – fato que reduziu o volume de divisas para a Venezuela.

A escassez de preservativos provocou – além das anti-eróticas filas para ter insumos para sexo seguro – uma disparada do preço do produto.

Atualmente uma caixa de 36 preservativos, comprada no mercado paralelo ou por internet, alcança a cotação de 4.760 bolívares. Este valor equivale a 85% de um salário mínimo venezuelano, isto é, US$ 25 caso seja calculado no câmbio oficial. Mas, são US$ 750 no parelelo, valor similar ao de um Iphone novo nos Estados Unidos.

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Charles II da Inglaterra (1630-1685), representante da dinastia Stuart, era enfático adepto do uso do preservativo (Charles II, retratado por Sir Peter Ley)

REVIVAL DO COITUS INTERRUPTUS – A escassez de preservativos – e o revival do arcaico coitus interruptus entre os venezuelanos – também implica no risco de uma eventual expansão da Aids e de gravidez em adolescentes.

A Venezuela tem o quinto maior índice de gravidezes não-desejadas e de doenças de transmissão sexual na América Latina. Além disso, o país tem o terceiro maior índice de Aids por habitante da América do Sul.

Para enfrentar a escassez de produtos, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional, o Parlamento venezuelano, vice-presidente do PSUV – o partido do governo – ordenou a formação de “comandos populares militares” para agilizar e eliminar as filas nos estabelecimentos comerciais.

O argumento do governo é que os empresários estão provocando as filas (mesmo que isso implicasse perder dinheiro) para gerar irritação na sociedade contra o presidente Maduro. O governo afirma que já está em funcionamento a “Fábrica Socialista de Preservativos” para – segundo Maduro – “blindar a pátria” contra a gravidez precoce.

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Em 2013 a Venezuela foi notícia mundial pela escassez de papel higiênico. Nunca antes na História da Humanidade o papel higiênico havia estado presente nas teorias de conspiração de um governo. Segundo o presidente Maduro, traidores venezuelanos em conjunção com representantes de “El Imperio” haviam estado por trás desse complô para prejudicar a limpeza dos esfíncteres venezuelanos. Acima, o Império contra-ataca: soldados imperiais de Star Wars sobem por rolo de papel higiênico, prestes a realizar mais um inesperado ataque. “The force be with you”, poderiam ter proferido os jedis.

A ESFINTÉRICA CRISE – Em 2013 os esfíncteres venezuelanos estiveram no olho do furacão de uma insólita crise de escassez de papel-higiênico. O desabastecimento do produto gerava filas nos supermercados e farmácias, enquanto que o governo em Caracas, isto é, a Revolução Bolivariana, anunciava que acabaria com a suposta “campanha midiática” que a oposição e a “oligarquia” estavam fazendo sobre este visceral assunto.

O governo acusava a oposição e os empresários de estocar e provocar o sumiço de papel higiênico (entre outros produtos) para tentar derrubar o presidente Maduro, que tomou havia tomado posse pouco tempo antes. Nunca antes na História da Humanidade o papel higiênico havia estado presente nas teorias de conspiração de um governo.

Na ocasião a administração Maduro deixou claro que não se intimidaria, pois o então ministro do Poder Popular para o Comércio, Alejandro Fleming sustentou que “a Revolução trará ao país 50 milhões de rolos de papel higiênico para que nosso povo se tranquilize!”

Segundo as autoridades chavistas, o objetivo era o de “saturar” o mercado local com papel higiênico. Desta forma, derrotaria os agentes do imperialismo.Para dissipar dúvidas sobre a capacidade industrial nacional para a produção desse produto, o ministro Fleming destacou que “não existe deficiência na produção de papel higiênico”.

Posteriormente Maduro mudou sua estratégia e deixou de acusar a oposição e os Estados Unidos para alegar que o produto estava escasso por um motivo positivo: os venezuelanos estavam comendo mais, logo, requeriam, momentos depois – e no meio do caminho, os costumeiros movimentos peristálticos – mais papel-higiênico.

O governo da Venezuela declarou na época que o país possuía um consumo mensal de 125 milhões de rolos de papel higiênico. Mas, a demanda extra em 2013 desse insumo imprescindível para a limpeza dos esfíncteres havia aumentado – segundo o governo – em 40 milhões de rolos. O ministro Fleming – para dar uma demonstração de força – sustentou na ocasião que o governo chavista levaria mais rolos para os venezuelanos, apenas como demonstração de poder. “Vamos trazer 50 milhões de rolos para demonstrar a esses grupos que não conseguirão nos derrotar!!”.

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O presidente Maduro foi eleito em 2013 com 50,6% dos votos. Em outubro passado sua aprovação popular estava em 30,2%. Em novembro havia caído para 24,5%. Mas em dezembro baixou para 22%, segundo a consultoria Datanálisis. O presidente Hugo Chávez, antes do anúncio oficial de sua morte, em março de 2013, contava com 65% de popularidade, isto é, o triplo de popularidade que seu sucessor.

CONSPIRANÓIAS – Maduro recebeu de herança uma crise econômica do defunto presidente Hugo Chávez que expandiu-se de forma acelerada durante seu governo. Além disso, está com dificuldades de conciliar as diversas correntes do bolivarianismo, algumas das quais reclamam da crise econômica que assola o país.

Maduro, em vez de tentar dialogar com os setores chavistas críticos, optou por considerar que são “traidores” aqueles que pensam diferente, E, por isso, no ano passado criou um “disk-traidor”, isto é, um serviço telefônico e de mail para que os militantes fiéis denunciem os ‘traidores’, isto é, aqueles que pregam uma auto-crítica do partido. Um dos setores críticos é o “Maré Socialista”, que concentra chavistas insatisfeitos com Maduro.

Quando o presidente (e tenente-coronel) Chávez, antes de morrer, definiu que seu sucessor seria Maduro – um civil – isso desagradou vários setores, especialmente os militares.

Com o anúncio oficial de sua morte, em março de 2013, assumiu formalmente Maduro, que poucas semanas depois passou pelo crivo de eleições presidenciais, as quais venceu com uma minúscula margem de votos. De lá para cá a popularidade de Maduro foi caindo sem parar.

Maduro até tentou conquistar setores da sociedade alegando que tinha um contato sobrenatural ornitológico com Chávez, afirmando que o espírito do defunto líder havia encarnado em um passarinho com o qual conversava.

Maduro também tentou desviar a atenção da opinião pública anunciando a existência de 15 conspirações contra sua pessoa e seu governo, basicamente tentativas de magnicídio. No entanto, pessoa alguma foi julgada por esses supostos complôs, sequer Maduro apresentou provas sobre as conspirações, que os venezuelanos com ironia denominam de “conspiranóias”, mix de paranoia e conspiração.

O principal teste de Maduro ocorrerá na segunda metade deste ano, quando serão realizadas eleições parlamentares. O presidente precisa uma vitória nas urnas para reforçar seu abalado comando dentro do chavismo.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios é desde 1996 o correspondente em Buenos Aires do canal de notícias Globo News, para o qual cobre os países da América do Sul. Ele foi o correspondente de O Estado de S.Paulo (1995-2015), da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Foi colunista da Revista Imprensa e colabora eventualmente com o Observatório da Imprensa.

Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com o correspondente internacional Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

Em 2014 recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

Ariel formou-se em 1987 na Universidade Estadual de Londrina (PR) e fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993.

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