Battle of Plataea

Gregos e Persas trocam sopapos a granel na Μάχη των Πλαταιών/Machē tōn Plataiōn,  isto é, a Batalha de Platea, no ano 479 a.C. Dois milênios e meio depois as torcidas do River Plate e do Boca Juniors encaram cada superclássico como se fosse um batalha final entre os dois rivais. Naquele encontro na planície da Beócia o placar foi favorável aos gregos.

No Palio de Siena, explica o jornalista e escritor Guga Chacra, realizado todos os anos duas vezes no verão, uma em julho e outra em agosto, cavalos representando cada uma das “contradas”, ou mini-bairros dessa cidade toscana, disputam há séculos uma corrida na Piazza il Campo, depois de um tradicional desfile de bandeiras. Nesse embate, cada contrada costuma ter uma rival. A Aquila é inimiga da Pantera; a Istrice, da Lupa; a Tortuca, da Chicciola; a Torre, da Onda.

Algo similar ocorre no futebol argentino, onde certos times possuem um rival comme il faut (e os outros são rivais ocasionais, de muito menor magnitude). Entre os embates “clássicos” estão os do…

Racing x Independiente,

San Lorenzo x Huracan.

Vélez Sarsfield x Ferrocarril Oeste,

Chacarita x Atlanta

Estudiantes de La Plata x Gimnasia y Esgrima.

…e o Rosario x Newell’s, entre outros.

Mas esses confrontos futebolísticos são “clássicos”. O único “super-clássico” – segundo a vox populi e na opinião dos analistas esportivos – é apenas o confronto do River Plate e o Boca Juniors, cuja rivalidade que acumula quase 102 anos de existência. De um total de 217 jogos, o Boca venceu em 80 ocasiões. O River em 70. Os dois rivais empataram em 67 ocasiões.

Além do tempo acumulado que intensifica essa inimizade, existe uma questão de volume que torna este confronto algo que mobiliza paixões, tal como os gregos contra persas, romanos versus cartagineses ou os Capuletos contra os Montecchios, pois estes dois clubes concentram ao redor de 75% da torcida argentina. Tal proporção inexiste no Brasil, onde clássico algum reúne tal proporção da torcida brasileira. Isso tampouco ocorre na Itália, onde o Milan e o Juventus tampouco aglutinam essa porcentagem. Ou sequer o embate Bayern versus Dortmund.

De quebra, além do peso na torcida total do país, o River e o Boca estão na mesma cidade, fato que intensifica a rivalidade. Não é como o Barcelona e o Real Madri, quase com 113 anos de rivalidade, em cidades diferentes, nas quais os torcedores inimigos possuem pouco contato cotidiano, ao contrário dos torcedores dos portenhos River e Boca.

O único exemplo parecido é o do Peñarol e o Nacional, em Montevidéu, Uruguai, pois esses dois times reúnem 93% dos torcedores uruguaios. Além disso, de todos os clássicos do mundo, o Peñarol e o Nacional devem ser os que mais jogos acumulam: um total de 519 jogos, o dobro do Real Madri versus o Barcelona.

Ao contrário do que algumas pessoas pensam no exterior, a rivalidade River-Boca não representa um conflito de classes sociais. O antigo mito indicava que o Boca era o “time da classe operária” e o River da classe média alta e a classe alta. No entanto, sempre foi um mito. Um mito que, com o passar das décadas foi ficando cada vez mais sem fundamentos. Nas últimas quatro décadas as sete graves crises econômicas que a Argentina (sem contar as crises médias e pequenas), além dos momentos de ascenção social, encarregaram-se de implodir os perfis sociais de outrora.

Hoje em dia o Boca conta com 33% de torcedores ricos, 33% de classe média e 33% de classe baixa, segundo pesquisas. O perfil social do River Plate similar.

BlogSuperclassico

Embate no final dos anos 40 entre o River e o Boca.

OVERDOSE DE SUPERCLÁSSICOS – A partir deste domingo o River Plate e do Boca Juniors protagonizarão uma overdose de superclássicos em um período de apenas 11 dias. O primeiro embate River-Boca ocorrerá no estádio de La Bombonera, dentro do âmbito do campeonato nacional.

No entanto, os dois seguintes confrontos são decorrentes da vitória que dias atrás o Boca Juniors teve sobre Palestino, do Chile, por 1 a 0. Com este placar entrou em ação o mecanismo da Copa Libertadores que levará o time dos “bosteros” à batalha com o time dos “galinhas”. Os dois seguintes encontros – nesses casos, dentro da Libertadores – ocorrerão nos dias 7 e 14 de maio, respectivamente no Monumental e na Bombonera.

O River acumula um período de péssimo desempenho, embora tenha iniciado um período de recuperação. O Boca, por seu lado, teve no último ano uma fase estupenda, embora recentemente tenha se estancado. Por esse motivo, para o River, esta é a melhor ocasião para um “relançamento”, uma chance de dar um “revamp”. Mas, para o Boca, o confronto com o River será um duelo de desgaste. Os analistas esportivos afirmam que, para o Boca, o ideal seria encontrar o River mais para a frente (por exemplo, em uma semifinal ou na final da Libertadores).

Os analistas também indicam que, mais além do espetáculo futebolístico e adrenalínico de um River versus Boca, o resultado deste embate, seja lá qual for, implicará em um duro golpe no ânimo do derrotado – por tempo indeterminado – e um entusiasmo enorme no vencedor. Além disso, estes jogos entre rivais históricos implicam em um grande desgaste físico e mental nos jogadores.

blog1livrosbook_thumb_thumbBREVE GLOSSÁRIO RIVER-BOQUENSE

El Monumental: Denominação do estádio “Monumental de Núñez”, do time River Plate. Mas, na realidade, oestádio do River chama-se “Antonio Vespucio Liberti”, em homenagem ao presidente do clube que o construiu em 1938. No entanto, usa-se a denominação popular de  “estádio Monumental de Núnez”, em referência ao bairro de Núñez. Apesar do nome, o estádio do River está no bairro de Belgrano, a poucos quarteirões da fronteira com Núñez. Coincidentemente, existe um time chamado “Defensores de Belgrano”, que está no bairro de Núñez.

Los Borrachos Del Tablón: “Os bêbados da prancha”, denominação dos hooligans do River Plate.

Gallina: “Galinha”. Nome sarcástico usado pelos bosteros para referir-se aos torcedores do River Plate.

Millonarios: Na década de 1930 o River decidiu investir em contratações caras, pagando elevados salários para seus jogadores, incluindo craques como Bernabé Ferreyra. Por este motivo, segundo os torcedores do clube, surgiu o apelido de “millonários” (milionários). No entanto, os boquenses possuem uma outra versão, que indica que os fanáticos do River eram da alta sociedade, e por isso eram chamados ironicamente de “milionários”. No entanto, há várias décadas que a composição social dessas torcidas mudou radicalmente. Hoje, há torcedores de todas as classes sociais nas fileiras do Boca e do River. A crise argentina de 2001-2002 – que criou uma classe média “arruinada” – alterou mais ainda esse cenário.

La Boca: Bairro da zona sul de Buenos Aires. O bairro chama-se assim porque está na “boca” do Riachuelo, fétido rio que separa a capital argentina da periferia meridional. Foi um dos portos da cidade durante o século XIX.

La Bombonera: Nome informal do Estádio do Boca Juniors, em pleno coração do bairro de La Boca. Tem esse nome porque parece uma caixa de bombons, sem a leve inclinação característica dos outros estádios. Na Bombonera, as arquibancadas estão quase em posição vertical. O nome oficial do estádio é “Alberto J. Armando”, um antigo presidente do clube.

Casa Amarilla: Velho casarão de um dos heróis da independência argentina, o almirante Guillermo Brown. Seu amplo terreno é utilizado como centro de treinamento do Boca Juniors.

La Doce: Torcida “dura” do Boca. Para alguns, são os “hooligans” do time. Para outros, apesar do comportamento mafioso, La Doce é a responsável pela “ordem” no estádio.

Bostero: Relativo a bosta, esterco. Originalmente, a denominação ofensiva dos torcedores do Boca criada pelos torcedores do River Plate. Atualmente, a palavra é usada com orgulho pelos próprios torcedores do Boca para autodefinir-se.

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Para encerrar, a Pavane de Gabriel Fauré, interpretada pelos 12 celistas da Berliner Philharmonker:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios é desde 1996 o correspondente em Buenos Aires do canal de notícias Globo News, para o qual cobre os países da América do Sul. Ele foi o correspondente de O Estado de S.Paulo (1995-2015), da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Foi colunista da Revista Imprensa e colabora eventualmente com o Observatório da Imprensa.

Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com o correspondente internacional Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

Em 2014 recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

Ariel formou-se em 1987 na Universidade Estadual de Londrina (PR) e fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993.

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