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O capitão Haddock, parceiro das aventuras de Tintin, e seu colossal arsenal de impropérios. Nos estádios argentinos os torcedores possuem menos sutilezas (mas são mais freudianamente mais interessantes)

As variadas expressões para ofender/insultar/irritar alguém na sociedade argentina podem ser vistas de forma concentrada durante as horas transcorridas durante a chegada a um estádio de futebol, no período ao longo do jogo (com o intervalo incluído) e também na saída do recinto esportivo, enquanto os torcedores partem de volta para o aconchego de seus respectivos lares.

Mais além do âmbito do estádio (e seus arredores), os epítetos também podem ser pronunciados nas escalas ocasionais no meio do caminho de volta, isto é, pit stops nos quais os torcedores eventualmente intercambiam opiniões com os rivais e, desta forma, protagonizam cenas de pugilato ou telecatch com representantes de outros times. E, comme il faut, também costumam incluir a depredação de patrimônio público ou privado no meio do caminho.

Para orientar o turista/torcedor brasileiro, colocamos aqui uma breve antologia das expressões utilizadas:

La concha de tu madre: “Concha” é a palava, na gíria local, para referir-se à vagina de forma chula. “Madre” é a mãe. Portanto, a pessoa que profere esta frase refere-se à vagina da progenitora de outrem.

Quase sempre é acompanhado, no início, do verbo “andar”. A frase, desta forma, seria “andá a la concha de tu madre” (vá para a vagina de tua mãe”).

No entanto, em vez desta opção imperativa, também pode ser usada uma variante inquisitiva de com convidativo, que é a “porqué no te vas a la concha de tu madre” (porque é que você não vai à vagina de sua mãe?”).

E, como reforço não-obrigatório, poderia ser ampliada com a inclusão do insulto “boludo”, desta forma: “porqué no te vas a la concha de tu madre, boludo?”.

La concha de tu hermana: A mesma utilização do verbete acima. No entanto, muda a protagonista e dona da vagina, que passa a ser a irmã. Ocasionalmente pode ser citada a “abuela” (avó).

Forro: Esta palavra era a princípio uma gíria argentina para designar o preservativo. No entanto, começou a ser usada como um peculiar insulto, indicando que alguém equivale a um preservativo (algo estranho, pois o preservativo é um elemento útil).

Uma versão mais específica pode ser “forro pinchado” (preservativo furado, expressão que aí sim, indica que alguém é um fracasso).

Hijo de puta: Forma usada para explicitar o desagrado com alguém que é má pessoa. Esta é a versão em espanhol do clássico mundial no qual afirma-se que o interlocutor (ou a pessoa citada na conversa) tem uma mãe dedicada à atividade sexual paga.

Mas, na Argentina estão as peculiares versões que pretendem intensificar o epíteto. Uma delas é “hijo de mil putas” (filho de mil putas), uma condição impossível, pois a pessoa seria filho de múltiplas mães. No entanto, é uma licença poética permitida aos epítetos.

Andate a la puta que te parió: Com esta expressão a pessoa expressa ao interlocutor que vá procurar sua mãe, senhora de profissão sexual, que lhe deu a luz. O equivalente em português ao “vá à puta que te pariu”. Mas, a tradição argentina é rica em reforços. Portanto, esta expressão pode ser potencializada com um aditivo, como “boludo de mierda” (ver explicação). Logo, a expressão fica ampliada para “andate a la puta que te parió, boludo de mierda”.

Le vamos a romper el orto: Uma expressão que indica o desejo de sodomia com outrem. Neste caso, ativamente. Seria o equivalente a “vamos a quebrar os ânus deles” (implicitamente com o membro viril, e não com o uso de elementos artificais de penetração).

Paradoxalmente, os torcedores que proferem esta expressão se vangloriam de sua heterosexualidade (e também costumam ser homofóbicos), embora neste comentário ofensivo explicitem a realização de um coito anal com o rival/inimigo. Sigmund Freud, se estivesse vivo, faria a festa nos estádios em todo o planeta.

Mierda: Palavra em castelhano para “merda”. A utilização da palavra para designar os excrementos humanos é polivalente, já que aquele que pronuncia a expressão ressalta – com esta palavra curta e sonora – que algo alguém possui escassa ou nula qualidade estética, moral ou material. Isto é, que não é do agrado de quem faz a avaliação.

Os torcedores argentinos também unem características físicas à palavra “mierda” para potencializar o insulto. Por exemplo, “gordo de mierda” (gordo de merda). Também podem ser usadas grupos étnicos ou nacionalidades (um hit parade dos insultos em todo o mundo), como por exemplo: “moldavo de mierda!” (em referência aos cidadãos da Moldávia, nome da antiga Bessarábia).

Inclusive, serve para reforçar um insulto independente como “boludo”, que pode ser tonificado como em “boludo de mierda”.

Poderíamos dizer que no idioma de Cervantes e Bilardo a palavra tem mais força do que na língua de Camões e Zagalo, já que a letra “i” do meio propicia um tom mais ferino.

Ao mesmo tempo a letra “r” em espanhol (exceto em Cuba, onde é quase uma “l”) tem uma sonoridade intensa, que supera o “r” suave carioca que espalhou-se nas últimas décadas pelo Brasil.

Ir a la mierda: Expressão que, no caso de “andate a la mierda” (vai à merda) é utilizada para indicar que desejamos que o interlocutor vá para esse lugar físico e supostamente remoto nunca antes cartografado. No entanto, também pode ser usada de forma reflexiva, como avaliação sobre o péssimo desempenho de um time para o qual torcemos. Neste caso, “nos fuimos a la mierda” (fomos à merda).

Boludo: Este é o impropério argentino par excellence, que indica o ‘idiota’, ‘imbecil’, ‘tonto’, ‘panaca’. A expressão-insulto – a preferida neste país – designa aquele que possui “bolas” (testículos) grandes. Em diversas culturas, expressões similares eram utilizadas para referir-se a algum panaca sideral. É o caso dos italianos, que utilizam há séculos a expressão ‘coglione’. Nestes casos, servia para indicar que alguém tinha os testículos tão grandes que não podia mover-se de forma normal.

Uma corrente, atualmente desprestigiada no mundo acadêmico, indicava décadas atrás que a etimologia de “boludo” provinha das ‘boleadoras’, a tradicional armas dos índios dos Pampas (e posteriormente dos gauchos), feita por uma corda em cujas pontas eram colocadas duas bolas (quando eram arremessadas, as boleadoras pegavam um animal pelas patas – ou o pescoço – derrubando-o). Isto é, era ‘boludo’ quem era pego – ou ficava tonto – pela ação das boleadoras. De todas formas, ‘boludo’ sempre indicou o ‘imbecil’.

Mas o uso do “boludo”, por parte de estrangeiros, deve ser usado com parcimônia até que a pessoa consiga um completo domínio do termo, para poder utilizá-lo em sua plenitude, sem que pareça forçado ou artificial. “Não existe ninguém mais boludo do que esses estrangeiros que, para imitar os argentinos, ficam dizendo ‘che’ e ‘boludo’” indica “Puto el que lee – Diccionario Argentino de insultos, injurias e impropérios”, pequena mas excelsa obra sobre os insultos aplicados costumeiramente no país.

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Além de pronunciar a palavra “boludo” os argentinos também recorrem à gestualidade para para indicar que alguém merece o epíteto. Para esta ação, a pessoa requer exibir a mão entreaberta, emulando o formato de uma tulipa (dedos separados, pontas para cima), embora, na realidade, seria como se estivesse contendo grandes testículos. O gesto deve ser realizado com a mão na altura do peito. O movimento deve ser lento. No sentido vertical, começando de baixo para cima. Repetir movimento para baixo. Percurso médio de 5 a 10 centímetros. Caso queira indicar que o boludo em questão é um considerável boludo, o gesto deve implicar em um aumento da distância do percurso vertical da mão. Quanto maior o percurso, mais o gesto adquire intensificação semântica.

Pelotudo: Sinônimo de Boludo. Nas últimas duas décadas, o “pelotudo”, graças à certa perda de potência do significado de “Boludo”, ficou cada vez mais valorizado. Seu uso em espanhol portenho pode ser como um insulto afirmativo: “Sos un pelotudo” (Você é um pelotudo). Mas também pode ser usado, com muita frequência, como interrogativo (uma característica vinculada à tradicional ironia argentina): “No ves que sos un pelotudo?” (Você não vê que é um pelotudo?). Na hora de pronunciar faça ênfase na sílaba “tu”, assim: “pe-lo--do”.

Chorro: Gíria para “ladrão”. Aplicado, principalmente, aos árbirtos de futebol.

Sorete: Unidade fecal. Também pode ser usada a versão silábica ao contrário, “tereso”.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios é desde 1996 o correspondente em Buenos Aires do canal de notícias Globo News, para o qual cobre os países da América do Sul. Ele foi o correspondente de O Estado de S.Paulo (1995-2015), da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Foi colunista da Revista Imprensa e colabora eventualmente com o Observatório da Imprensa.

Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com o correspondente internacional Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

Em 2014 recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

Ariel formou-se em 1987 na Universidade Estadual de Londrina (PR) e fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993.

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